IA & SYSTEMS

A Mania da IA Arrefece: Capital Global Redesenha Rotas

A euforia tecnológica de 2025 cede espaço à busca por valor real, realocando o poder econômico do Vale do Silício para mercados emergentes.

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A projeção de Ruchir Sharma, presidente da Rockefeller International, de um arrefecimento da "mania da IA" até 2026, é mais do que uma correção tecnológica: representa a reconfiguração do poder econômico global. O capital, antes concentrado desproporcionalmente nos Estados Unidos e na China, agora busca refúgio e crescimento em mercados emergentes e setores estratégicos. Essa virada impõe um contraponto à centralização tecnológica e financeira, redesenhando o mapa do investimento global.

A tese é clara: a euforia da IA, que impulsionou o crescimento norte-americano em 2025, esconde uma produtividade real ainda modesta. Com juros altos e custos crescentes, o dinheiro migra em busca de valor, onde a governança e a demanda doméstica oferecem mais solidez do que a promessa de lucros exponenciais.

A Bolha da IA: Sinais de Alerta

A "mania da IA" explodiu em 2025, alimentada por superinvestimento e superavaliação que ecoam bolhas históricas. Ruchir Sharma aponta que o boom da IA acende um alerta nos "quatro Os" clássicos: superinvestimento, superavaliação, superposse e excesso de alavancagem. Gigantes como Microsoft, Amazon, Google, Meta, Nvidia, Broadcom e AMD lideraram essa corrida, focadas em LLMs (Large Language Models), chatbots e IA para vídeo.

A Nvidia, por exemplo, alcançou US$ 4 trilhões em valor de mercado em julho de 2025, superando US$ 5 trilhões em outubro. Essa valorização meteórica, no entanto, contrasta com seu impacto econômico mais amplo. Sharma estimou que os gastos de capital em IA e o efeito riqueza do mercado de ações foram responsáveis por 40% a 60% do crescimento econômico dos EUA em 2025.

No entanto, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Pierre-Olivier Gourinchas, observou que o investimento em IA adicionou menos de 0,4% ao PIB dos EUA desde 2022. Esse número é modesto, especialmente comparado aos 1,2% adicionados pelo investimento em dot-com no final dos anos 1990. A discrepância sugere que o entusiasmo de Wall Street e do Vale do Silício ainda não se traduziu em ganhos de produtividade na mesma escala da bolha das pontocom.

Juros Altos, Capital Migra

Sharma reiterou em dezembro de 2025 e janeiro de 2026 sua previsão de arrefecimento, apontando as taxas de juros mais altas como o gatilho. A monetização real da IA – a capacidade de gerar lucros substanciais, e não apenas de seu desenvolvimento – permanece incerta e em estágio inicial. Essa incerteza, combinada à forte dependência do crescimento econômico dos EUA na IA e à fraqueza em outros setores, cria um cenário de risco.

O boom da IA adicionou pressão real sobre os custos de energia, chips e investimento de capital. O desenvolvimento e a escala da IA dependem de vastas quantidades de poder computacional, clusters de GPU (Graphics Processing Unit) e infraestrutura avançada de data centers, exigindo inovações em tecnologias de refrigeração e gerenciamento térmico. Essa demanda insustentável contribui para a instabilidade.

Os primeiros sinais dessa mudança surgiram em 2025, quando os mercados internacionais superaram os mercados dos EUA, registrando ganhos ajustados ao dólar de cerca de 20%. Paralelamente, os fluxos de capital para mercados emergentes aumentaram em um ritmo não visto desde 2009. Essa realocação funciona como um contraponto natural à concentração de poder, buscando valor e diversificação em um mundo menos centralizado do que a narrativa da IA sugere.

Onde o Capital Encontra Valor

A desaceleração da "mania da IA" provoca uma saída de capital dos mercados de tecnologia dos EUA, direcionando-o a mercados emergentes com forte demanda doméstica, melhor governança e exposição a mudanças na manufatura global. Regiões como o Sul da Ásia, partes da Europa (a Grécia é um exemplo), América Latina e economias de fronteira atraem interesse renovado. Índia, Sudeste Asiático (Indonésia, Malásia, Vietnã) e América Latina são beneficiadas diretamente.

Setores como energia renovável, agronegócio de alta tecnologia (agricultura inteligente e adaptada ao clima) e infraestrutura de data centers (incluindo energia e refrigeração) são destinos-chave para esses investimentos. A qualidade regulatória, a segurança jurídica e a capacidade da infraestrutura de um país são determinantes cruciais. Países com boa governança, caracterizada por legislação eficaz e sistemas legais transparentes, atraem mais Investimento Estrangeiro Direto (IED).

Essa realocação, no entanto, não está isenta de riscos. A incerteza na monetização da IA e a pressão sobre os custos de energia e chips persistem. Há também a possibilidade de sobrevalorização, mesmo nesses setores emergentes, se o capital for direcionado de forma muito agressiva.

O Tabuleiro da Reconfiguração

A reconfiguração do capital global desenha um cenário claro de ganhos e perdas.

Beneficiados:

  • Economias Emergentes com Reformas: Países com reformas estruturais, forte demanda doméstica e melhor governança estão bem posicionados. O FMI projeta que os mercados emergentes crescerão 3,9% em 2026, superando as economias avançadas (1,4%).
  • Setores Estratégicos: Energia renovável, agronegócio de alta tecnologia e infraestrutura de data centers em mercados emergentes atrairão capital em busca de valor real.
  • Economias Regionais: A realocação de capital dilui a influência das superpotências, fortalecendo economias regionais que demonstram resiliência e capacidade de adaptação.

Desafiados:

  • Mercado de Tecnologia dos EUA: Uma queda repentina no investimento em IA poderia levar o mercado de trabalho dos EUA a uma recessão em grande escala, segundo as projeções.
  • Empresas Supervalorizadas de IA: Companhias com avaliações inflacionadas, que não conseguirem monetizar suas tecnologias, enfrentarão correções severas.
  • Países sem Governança Eficaz: Aqueles que falham em alcançar um limiar mínimo de governança eficaz ou que veem a IA apenas como uma ferramenta de apoio correm o risco de serem deixados para trás na cadeia econômica global.

Próximos Movimentos

O ano de 2026 será decisivo para validar a tese de arrefecimento da IA e a realocação de capital. É crucial observar a política de juros dos bancos centrais, especialmente o Federal Reserve, e como ela impacta o custo do capital global. A verdadeira medida do impacto da IA não estará nas avaliações de mercado, mas nos ganhos de produtividade tangíveis que as empresas conseguirem demonstrar.

A atenção deve se voltar para a capacidade dos mercados emergentes de sustentar o crescimento e atrair IED, especialmente em setores-chave como energia limpa e infraestrutura digital. A resiliência das cadeias de suprimentos globais, que a IA prometeu otimizar, será testada, e a capacidade de países como Índia e Vietnã de absorver e escalar novas manufaturas será um termômetro. A governança e a estabilidade regulatória continuarão sendo ímãs para o capital que busca segurança em um mundo menos previsível.

Conclusão

A "mania da IA" de 2025, embora tenha gerado valor de mercado sem precedentes, parece ter sido um espelho que refletiu mais expectativa do que substância econômica. O capital global, um rio que sempre busca o menor custo e o maior retorno, está agora esculpindo novos leitos. Essa reorientação não é um sinal de fracasso da tecnologia, mas sim uma correção natural do mercado, que busca ancorar o investimento em fundamentos sólidos: governança, demanda real e produtividade mensurável. O futuro do poder econômico global será definido não apenas pela inovação, mas pela sabedoria na alocação de recursos em um cenário de juros mais altos e expectativas mais realistas.

--- Por Redação The Meridian

Fontes e Referências

"A projeção de Ruchir Sharma, presidente da Rockefeller International, de um arrefecimento da "mania da IA" até 2026"

AnáliseRuchir SharmaPresidente da Rockefeller International

"A Nvidia, por exemplo, alcançou US$ 4 trilhões em valor de mercado em julho de 2025, superando US$ 5 trilhões em outubro."

DadosMercado de ações

"Sharma estimou que os gastos de capital em IA e o efeito riqueza do mercado de ações foram responsáveis por 40% a 60% do crescimento econômico dos EUA em 2025."

AnáliseRuchir SharmaPresidente da Rockefeller International

"o investimento em IA adicionou menos de 0,4% ao PIB dos EUA desde 2022. Esse número é modesto, especialmente comparado aos 1,2% adicionados pelo investimento em *dot-com* no final dos anos 1990."

DadosPierre-Olivier GourinchasEconomista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI)

"Sharma reiterou em dezembro de 2025 e janeiro de 2026 sua previsão de arrefecimento"

AnáliseRuchir SharmaPresidente da Rockefeller International

"Os primeiros sinais dessa mudança surgiram em 2025, quando os mercados internacionais superaram os mercados dos EUA, registrando ganhos ajustados ao dólar de cerca de 20%."

DadosMercados financeiros internacionais

"os fluxos de capital para mercados emergentes aumentaram em um ritmo não visto desde 2009."

DadosDados de fluxo de capital

"O FMI projeta que os mercados emergentes crescerão 3,9% em 2026, superando as economias avançadas (1,4%)."

RelatórioFundo Monetário Internacional (FMI)

Perguntas Frequentes

Por que a 'mania da IA' está arrefecendo em 2026?

A 'mania da IA' arrefece em 2026 devido a juros mais altos, custos crescentes de energia e chips, e uma monetização real da IA ainda incerta. A euforia de 2025 impulsionou o crescimento dos EUA, mas a produtividade real da IA mostrou-se modesta, levando o capital a buscar valor e solidez em outros mercados.

Qual foi o impacto real da IA no PIB dos EUA em 2025?

Segundo Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI, o investimento em IA adicionou menos de 0,4% ao PIB dos EUA desde 2022. Este número é considerado modesto, especialmente quando comparado aos 1,2% adicionados pelo investimento em 'dot-com' no final dos anos 1990, sugerindo que o entusiasmo de mercado não se traduziu em ganhos de produtividade na mesma escala.

Para onde o capital está migrando após o arrefecimento da IA?

O capital está migrando dos mercados de tecnologia dos EUA para mercados emergentes com forte demanda doméstica, melhor governança e exposição a mudanças na manufatura global. Regiões como Sul da Ásia, partes da Europa (ex: Grécia), América Latina e economias de fronteira, além de setores como energia renovável, agronegócio de alta tecnologia e infraestrutura de data centers, são destinos-chave.

Quem se beneficia com a reconfiguração do capital global?

As economias emergentes com reformas estruturais e forte demanda doméstica, setores estratégicos como energia renovável e agronegócio de alta tecnologia, e economias regionais que demonstram resiliência são os principais beneficiados. O FMI projeta que os mercados emergentes crescerão 3,9% em 2026, superando as economias avançadas.

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