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Além da BYD: A Crise Estrutural da Tesla

A notícia de que a Tesla foi superada pela BYD em vendas de EVs pelo segundo ano consecutivo

Cover image for: Tesla: O Fim do Crescimento Exponencial no Mercado Elétrico

A Maturação Forçada de um Gigante

A Tesla cedeu sua coroa no mercado de veículos elétricos em 2025, um evento que não apenas reposiciona a BYD como líder global, mas desmantela a tese de investimento que por anos blindou a empresa de Elon Musk das realidades da indústria automotiva. O que se desenrola não é um tropeço isolado, mas uma crise estrutural que exige uma reavaliação profunda do modelo de negócios da Tesla e, consequentemente, de seu valor de mercado. O mercado amadureceu, e a abordagem de nicho da Tesla, com poucos modelos e a aposta em tecnologias ainda incipientes, revelou-se frágil frente à necessidade de diversificação, eficiência de custos e uma cadeia de suprimentos robusta. A Tesla, que antes navegava em mar aberto como um veleiro solitário e veloz, agora se vê em um porto lotado, onde a BYD, um porta-contêineres robusto e eficiente, domina as rotas comerciais.

Por Redação The Meridian

A Virada do Jogo em 2025

A Tesla desfrutou de uma década de expansão, impulsionada pelo pioneirismo e por subsídios. Essa trajetória, contudo, começou a reverter em 2024 e acelerou em 2025. Elon Musk, que uma década atrás desdenhava da capacidade da BYD de competir, agora vê essa postura como uma falha estratégica. A BYD, fundada em 1995 como fabricante de baterias e no setor automotivo desde 2003, e a indústria chinesa, em uma década, promoveram um salto sistêmico na eletrificação e inteligência, moldando a estrutura industrial global.

O mercado global de veículos elétricos (VEs) cresceu fortemente, com as vendas de VEs aumentando 32% anualmente até o terceiro trimestre de 2025. A penetração de veículos elétricos a bateria (BEVs) atingiu um novo marco no mesmo período, representando 18% das vendas globais de veículos de passageiros. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que as vendas de VEs atinjam 40% do mercado global até 2030, um cenário de competição acirrada onde a liderança não é mais um monopólio.

A Contabilidade da Queda

A Tesla registrou vendas de 1,64 milhão de veículos em 2025, um declínio de 8,5% em relação a 2024, marcando o segundo ano consecutivo de queda. As entregas no quarto trimestre de 2025 caíram quase 16% na comparação anual, e no primeiro trimestre do mesmo ano, a queda foi de 13% na comparação anual. Enquanto as vendas globais de VEs cresceram 28% em 2025, a Tesla encolheu, segundo dados da Morningstar. A dependência da empresa de uma linha restrita de modelos, liderada pelo Model Y, e a falta de atualizações de produtos a curto prazo a deixaram vulnerável.

A estratégia da Tesla de cortes agressivos de preços, embora visasse a estimular a demanda, corroeu as margens sem reverter a desaceleração. O envolvimento político de Elon Musk e suas declarações de direita geraram uma reação negativa entre os consumidores, afetando a percepção da marca, especialmente na Europa. A expiração do crédito fiscal de US$ 7.500 nos EUA no final de setembro de 2025 também impactou a demanda doméstica da Tesla.

A Alavanca Industrial da BYD

A BYD, em contraste, registrou um recorde de 4.272.145 veículos vendidos em 2024, um aumento de 41,3% em relação ao ano anterior. Em 2025, entregou 4.602.436 Veículos de Nova Energia (NEVs), um aumento de aproximadamente 7,73% na comparação anual. Suas vendas de BEVs atingiram 2.256.714 unidades em 2025, um aumento de 27,9% em relação a 2024, conforme relatórios da própria BYD. No primeiro semestre de 2025, a BYD detinha 19,9% do mercado global de VEs, contra 7,5% da Tesla, segundo o grupo de análise automotiva Autovista24.

A força da BYD reside em sua integração vertical. A empresa fabrica aproximadamente 75% de seus componentes internamente, incluindo baterias (com a tecnologia Blade Battery), semicondutores e eletrônicos de potência. Essa capacidade proporciona um controle de custos incomparável e uma resiliência robusta na cadeia de suprimentos, um trunfo em um mercado volátil. No primeiro trimestre de 2024, a BYD registrou um crescimento de 10,62% na comparação anual em seu lucro líquido, atingindo cerca de 4,569 bilhões de yuans, enquanto suas despesas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) aumentaram 70,1%, chegando a 10,611 bilhões de yuans, o que representa 8,49% da receita total, segundo seus relatórios trimestrais.

A diversificação de produtos da BYD é outro pilar de seu sucesso. A empresa oferece desde carros urbanos acessíveis, como o Seagull (por cerca de US$ 7.800), até sedans premium e veículos de performance. Sua linha diversificada, dividida entre BEVs e veículos elétricos híbridos plug-in (PHEVs), permite atingir uma base de clientes muito mais ampla do que a Tesla. A BYD também lançou sistemas de carregamento ultrarrápido capazes de fornecer autonomia significativa em cerca de cinco minutos, reduzindo uma das vantagens de longa data da Tesla.

Geopolítica e a Ascensão Chinesa

A Tesla enfrenta forte concorrência, especialmente no mercado chinês, com rivais locais que oferecem VEs tecnologicamente avançados e com preços agressivos. Além da BYD, a Tesla enfrenta intensa competição de rivais chineses como Geely e Xiaomi, e de fabricantes europeus como Volkswagen e Stellantis. Os cinco principais fabricantes de automóveis chineses representaram 43% do mercado global em 2025, com a BYD detendo uma participação de mercado substancial de 36% no segmento de veículos de nova energia na China.

As vendas da Tesla na Europa despencaram devido à intensificação da concorrência e às declarações políticas de Elon Musk, com a BYD superando a Tesla em vendas na Europa pela primeira vez em maio de 2025. Em resposta às tarifas de 100% para VEs chineses impostas nos EUA desde 2024 e ao rigor regulatório em Washington e Bruxelas, a BYD tem uma estratégia agressiva de expansão global em mercados menos regulados. Suas vendas no exterior atingiram um novo recorde de 133.172 unidades em dezembro de 2025, um aumento de 133% na comparação anual, com planos de abrir até 1.000 novas lojas de varejo na Europa.

A Desconexão da Avaliação e o Insight Contraintuitivo

A avaliação da Tesla, que a posicionou por anos como uma empresa de tecnologia à frente de seu tempo, ainda reflete expectativas de domínio em autonomia, software e mobilidade impulsionada por inteligência artificial (IA). Elon Musk tem direcionado a Tesla para o foco em robotáxis e robôs humanoides, e a empresa começou a operar um serviço limitado de robotáxi em Austin, Texas.

A ironia é que, enquanto a Tesla busca o futuro em nuvens de código, a BYD consolida sua liderança com uma estratégia industrial robusta, verticalmente integrada e com foco em custos e diversificação de produto. Essa abordagem, que muitos considerariam "antiga" para o Vale do Silício, provou-se eficaz no mercado real, expondo a fragilidade de uma aposta exclusiva no software. O futuro da mobilidade elétrica, ao menos por enquanto, não se constrói apenas com código, mas com a solidez da manufatura.

Os Efeitos em Cascata Globais

A reavaliação da tese de investimento da Tesla é inevitável. O "prêmio de crescimento" ilimitado que o mercado lhe concedeu por anos está se esvaindo. A ascensão da China na indústria automotiva global, liderada pela BYD, muda a dinâmica de poder. A guerra de preços no mercado de VEs e a necessidade de integração vertical para competitividade tornaram-se imperativos, ditando o ritmo para todos os fabricantes.

Para mercados como o Brasil e a América Latina, essa mudança representa uma nova oportunidade. A BYD tornou-se a maior marca de VEs no Brasil em 2023, vendendo 17.943 VEs, em um mercado que teve um aumento significativo de 91% em 2023, com 93.927 emplacamentos, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). A China enxerga a América do Sul como uma grande oportunidade para trazer carros elétricos, onde não enfrentará os problemas de taxação dos Estados Unidos. O Brasil é visto como um hub para empresas como a Great Wall Motors (GWM) para toda a América Latina.

Quem Ganha e Quem Perde

Ganhadores:

  • BYD: Consolidou a liderança global em BEVs em 2025, com um modelo de negócio robusto e expansão global agressiva.
  • Fabricantes chineses de VEs: Ganharam participação de mercado significativa e impulsionaram a inovação em custos e diversificação.
  • Consumidores: Beneficiaram-se de maior variedade de produtos e preços mais competitivos devido à guerra de preços.
  • Mercados emergentes (América Latina, Sudeste Asiático): Tornaram-se novos focos de investimento e crescimento para VEs chineses.

Perdedores:

  • Tesla: Perdeu a liderança em BEVs, enfrentou pressão sobre seu valor de mercado e desafios de demanda e inovação de produto.
  • Investidores que apostaram exclusivamente no domínio da Tesla: Enfrentaram a reavaliação do prêmio de crescimento da empresa.
  • Fabricantes tradicionais: Aqueles que não conseguiram acompanhar a velocidade, o custo e a integração vertical dos rivais asiáticos.

Sinais no Radar

  • Vendas da Tesla e novos produtos: Acompanhar se a Tesla consegue reverter a queda nas vendas e se a entrega de novos produtos, além dos robotáxis, pode revitalizar a demanda.
  • Expansão global da BYD: Monitorar a abertura de até 1.000 novas lojas de varejo na Europa e o avanço da empresa na América Latina.
  • Políticas regulatórias e tarifas: Observar as decisões de mercados-chave como EUA e UE sobre tarifas e incentivos, e como a China (que deve reduzir alguns incentivos em 2026) reagirá.
  • Performance de outros fabricantes chineses: Acompanhar a ascensão de atores como Geely e Xiaomi, que intensificam a competição global.
  • Aposta da Tesla em robotáxis e IA: Avaliar o sucesso do serviço limitado de robotáxi em Austin, Texas, e se essa nova frente de receita pode justificar o valor de mercado da empresa.

O Ponto Final

A perda de liderança da Tesla em 2025 para a BYD, encerrando uma sequência de sete anos, não é um evento isolado, mas o sintoma de uma crise estrutural e o fim de uma era. O mercado de veículos elétricos está amadurecendo, tornando-se mais competitivo e exigindo modelos de negócio mais diversificados e integrados. A coroa da inovação e do crescimento no setor automotivo elétrico agora é disputada por múltiplos atores, com a China na vanguarda. A Tesla tentou construir uma empresa do século XXI com a mentalidade de software, mas a realidade do mercado automotivo exige uma base industrial sólida.

Redação The Meridian

Fontes

  • Agência Internacional de Energia (IEA)
  • Morningstar
  • Autovista24
  • BYD Company (relatórios anuais e trimestrais)
  • Tesla (relatórios de entregas)
  • Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE)
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