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Hexa em 2026: CBF Transforma Paixão em Ativo Global

O jejum de 24 anos força a Confederação a modernizar gestão e marca, redefinindo o futebol brasileiro.

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A busca do Brasil pelo hexa na Copa de 2026 transcende o campo. É o teste decisivo para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) provar que a paixão nacional, se bem gerida, pode ser um ativo global e não um mero passivo emocional. O país, que enfrenta o mais longo jejum de títulos mundiais de sua história — 24 anos sem um troféu —, precisa reescrever sua narrativa, transformando a inércia em motor de modernização.

A Copa do Mundo de 2026, com sede tripla nos Estados Unidos, México e Canadá, é um laboratório de negócios, tecnologia e gestão de marca. A jornada pelo hexa força a CBF a equilibrar a herança de um futebol vibrante com as demandas táticas e comerciais do esporte moderno. A "Era Neymar" agora cede espaço a uma nova geração, liderada por Vinicius Jr. e Endrick, em um cenário de transição que é, em si, um desafio estratégico.

A Inércia do Jejum: O Custo de 24 Anos

A preparação da seleção ocorre sob o espectro de falhas emocionais que marcaram 2014, 2018 e 2022. O '7 a 1' contra a Alemanha e o colapso contra a Croácia em 2022 expuseram a ausência de suporte psicológico, uma lacuna que custou caro em momentos decisivos, como um fio solto em uma complexa rede de alta performance.

O jejum de 24 anos sem título mundial não é apenas uma estatística. Ele é o sintoma mais visível da urgência para a CBF modernizar sua estrutura e competir no mercado global. O futebol, hoje, é uma indústria multimilionária, e a inércia pode significar a perda de relevância global, transformando uma marca icônica em um mero vestígio do passado.

Em outubro de 2025, análises de mercado já indicavam que a CBF, tardiamente, se movia para preencher essas lacunas. A confederação reconhecia que talento em campo não basta sem uma retaguarda robusta, capaz de sustentar a pressão de um torneio mundial.

Vinicius Jr. e Endrick: A Psicologia do Protagonismo

A transição da "Era Neymar" para a geração de Vinicius Jr. e Endrick representa uma das mudanças mais significativas no futebol brasileiro. Pesquisas de opinião recentes mostram a queda da preferência por Neymar, de 33% para patamares menores, enquanto Vinicius Jr. e Endrick ascenderam meteoricamente na preferência popular, segundo levantamentos do Datafolha.

Vinicius Jr. já atua como capitão e protagonista no Real Madrid. Endrick, por sua vez, assume a camisa 9 da seleção, mesmo com apenas 19 ou 20 anos na Copa de 2026. Ciente das falhas passadas, a CBF reintegrou a psicologia esportiva à comissão técnica, após uma década de negligência que custou caro em momentos decisivos.

A psicóloga Marisa Santiago, especialista em terapia cognitivo-comportamental e mestre pela UFMG, foi contratada para mitigar os colapsos emocionais que marcaram Copas anteriores. A aposta é clara: o talento bruto precisa de uma mente blindada para suportar a pressão de um país inteiro.

A Camisa Mais Cara do Mundo: R$ 1 Bilhão em Royalties

A CBF não reformula apenas seu elenco, mas também sua estratégia comercial. A renovação contratual com a Nike até 2038 marca um novo patamar para o futebol brasileiro. O contrato, uma extensão de 12 anos a partir de 2026, projeta rendimentos de até R$ 1 bilhão anuais, com valor base estimado em US$ 100 milhões (cerca de R$ 600 milhões), conforme comunicado pela confederação.

Pela primeira vez, a CBF garantiu royalties sobre a venda global de camisas, afastando propostas robustas da Adidas e Puma, que também se aproximavam da casa do bilhão. A camisa do Brasil, reconhecida como a mais valiosa entre as seleções nacionais, capitaliza essa força, transformando cada peça vendida em um fluxo de receita global.

Um hexa em 2026 não seria apenas um triunfo esportivo. Ele estimularia o consumo imediato de bebidas, carnes, TVs e vestuário, como um motor econômico de curto prazo. Historicamente, títulos mundiais impulsionaram o PIB, registrando crescimentos notáveis em 1994 (5,9%) e 2002 (3,1%), segundo dados do Banco Central do Brasil.

Mídia Fragmentada: O Duelo de R$ 2 Bilhões

O cenário de transmissão da Copa de 2026 revela uma fragmentação inédita no mercado de mídia esportiva. A CazéTV detém 100% dos direitos de transmissão dos jogos via YouTube, operando um modelo de negócios que desafia as emissoras tradicionais.

A plataforma projeta uma arrecadação publicitária de R$ 2 bilhões, com patrocinadores como Ambev, Coca-Cola, Itaú e Mercado Livre pagando cerca de R$ 185 milhões por cota máster, conforme divulgado pela própria CazéTV. O Grupo Globo, por sua vez, manteve direitos para 55 jogos da Copa, incluindo todos do Brasil e a final, em um acordo estratégico.

A Globo também projeta faturar cerca de R$ 2 bilhões com suas cotas comerciais na TV aberta e SporTV. Essa disputa de valores bilionários evidencia uma rivalidade acirrada e a pulverização do mercado de mídia esportiva, onde a audiência se dissolve em múltiplas plataformas, como gotas de chuva em um rio caudaloso.

Granja Comary 2.0: Tática e Sensores

Em campo, Dorival Júnior focou na organização defensiva e em um 4-3-3 adaptável. A estratégia busca dar liberdade aos atacantes como Vini Jr. e Rodrygo através de movimentos de infiltração, priorizando um meio-campo combativo com jogadores como João Gomes e Bruno Guimarães, formando um escudo tático.

Relatórios da comissão técnica indicam a presença e influência de Carlo Ancelotti no ciclo final de preparação, sugerindo uma busca incessante por excelência tática. A CBF implementou uma modernização tecnológica profunda para 2026, transformando a Granja Comary em um verdadeiro laboratório de performance.

Uma parceria com a Catapult trouxe sistemas de monitoramento de performance (GPS, carga física) para todas as categorias e, ineditamente, para os árbitros da Série A, segundo informações da CBF. O "Centro de Excelência" na Granja Comary agora usa palmilhas com 300 sensores para mapear pressão e evitar desgastes. Plataformas como Wyscout e InStat são adotadas para scouting, integradas a departamentos de inteligência. A base preferencial da seleção em Nova York/Nova Jersey (Columbia Park Training Facility) visa minimizar deslocamentos na Costa Leste, onde o Brasil jogará a fase de grupos contra Marrocos, Haiti e Escócia, otimizando a logística como um relógio suíço.

Atletas-Empresas: O Valor Bilionário em Campo

A valorização dos atletas brasileiros transcende o campo de jogo, transformando-os em verdadeiras empresas ambulantes. Vinicius Jr., Rodrygo e Endrick, juntos, foram avaliados em R$ 1,45 bilhão em 2023, superando o valor de mercado de seleções inteiras como a da Colômbia, conforme dados da consultoria Transfermarkt. O valor de mercado de Vinicius Jr. estima-se em € 150 milhões (cerca de R$ 925 milhões), consolidando-o como um dos ativos mais valiosos do futebol.

O Flamengo, clube formador, pode receber R$ 23 milhões via mecanismo de solidariedade em uma futura venda de Vinicius Jr. pelo Real Madrid, um detalhe micro que ilustra o impacto financeiro em cascata. A gestão de carreira e imagem de Vini Jr. e Endrick pela Roc Nation, empresa de Jay-Z, sinaliza a globalização da marca atleta: talento em campo gerido como um ativo de entretenimento global, com contratos e patrocínios que se estendem muito além das quatro linhas.

Hexa ou Fracasso: O Impacto Financeiro

A busca pelo hexa implica diretamente na sustentabilidade financeira da CBF e na valorização do "produto futebol brasileiro". Um título mundial não só reforça a marca, mas gera receita substancial para a confederação e os clubes formadores, criando um ciclo virtuoso de investimento e retorno.

Em caso de hexa, a CBF deve repassar entre US$ 15 milhões e US$ 22,5 milhões aos jogadores, seguindo a prática de distribuir 30-45% da premiação da FIFA, segundo o regulamento da entidade. Esse incentivo financeiro compõe a gestão de performance e reflete a monetização do sucesso. A modernização da CBF e a gestão estratégica da nova geração de atletas podem redefinir a imagem do futebol brasileiro no cenário global, elevando seu valor de mercado a patamares inéditos.

O Tabuleiro do Poder: Ganhadores e Perdedores

Ganhadores:

  • CBF: Novos contratos bilionários e modernização estrutural.
  • Nike: Contrato de patrocínio de R$ 1 bilhão anuais até 2038.
  • CazéTV: Direitos exclusivos de transmissão e projeção de R$ 2 bilhões em faturamento.
  • Roc Nation: Gestão de carreira de estrelas como Vinicius Jr. e Endrick, consolidando sua influência no esporte.
  • Vinicius Jr. e Endrick: Protagonismo na seleção e valor de mercado em ascensão.
  • Real Madrid: Valorização de ativos de alto nível.
  • Flamengo: Potencial de R$ 23 milhões via mecanismo de solidariedade em futuras vendas de Vini Jr.
  • Empresas de Tecnologia (Catapult, Wyscout, InStat): Parcerias estratégicas com a CBF.

Perdedores:

  • Grupo Globo: Perda da exclusividade total na transmissão da Copa, fragmentando sua audiência.
  • Neymar: Queda na preferência do torcedor e perda de centralidade na seleção.
  • Adidas e Puma: Perderam a disputa pelo patrocínio da camisa da seleção brasileira.
  • Mídias tradicionais: As que não se adaptaram ao modelo digital, perdendo espaço para novos players como a CazéTV.

Sinais no Radar

  1. A Performance da Nova Geração: O comportamento de Vinicius Jr. e Endrick sob a pressão do hexa e a eficácia do suporte psicológico implementado.
  2. O Futuro das Transmissões: Os resultados financeiros da CazéTV e do Grupo Globo na cobertura da Copa de 2026 ditarão o próximo capítulo da mídia esportiva.
  3. A Continuidade da Modernização da CBF: A capacidade da confederação de manter o ritmo de inovação tecnológica e gestão para sustentar o 'produto futebol brasileiro'.
  4. O Impacto Econômico Real: A influência de um possível hexa nos indicadores de consumo e PIB do Brasil.
  5. A Evolução Tática de Dorival Júnior: A integração das inovações tecnológicas no desempenho em campo e a capacidade de Dorival de moldar um time campeão.

A Síntese Necessária

A busca do Brasil pelo hexa na Copa de 2026, um anseio nacional, representa um teste decisivo para a CBF: equilibrar a herança histórica com as demandas táticas e comerciais do futebol moderno. O país se encontra em uma encruzilhada, onde a paixão pelo esporte se cruza com a vanguarda tecnológica e a gestão de marca global. A CBF tenta montar uma estrutura de negócios do século XXI para enfrentar um desafio esportivo do mesmo século. E, nessa disputa, o verdadeiro hexa será provar que a paixão nacional pode ser um ativo global sem se diluir em uma commodity, mas sim florescer como uma marca de valor inestimável.

--- Redação The Meridian

Fontes: Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Nike, CazéTV, Rede Globo, Roc Nation, Catapult, Wyscout, InStat, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Datafolha, Banco Central do Brasil, Transfermarkt, FIFA.