Redação The Meridian
David Ellison, através da recém-formada Paramount Skydance Corporation, lançou em 8 de dezembro de 2025 uma oferta pública de US$ 108,4 bilhões pela Warner Bros. Discovery (WBD). A manobra busca criar um titã verticalmente integrado. É vendida como um contraponto à concentração do streaming. A tese do Meridian Ledger é clara: essa fusão, longe de desafiar a hegemonia, arrisca aprofundar a consolidação do poder nas mãos de poucos, transformando a competição em um jogo de soma zero onde a escala vertical se torna um muro, não uma ponte.
O Lance da Escala e a Ilusão da Competição
A proposta de Ellison, totalmente em dinheiro e avaliada em US$ 30,00 por ação (incluindo a dívida da WBD), supera uma investida anterior da Netflix, que mirava apenas os ativos de streaming e estúdios da WBD. A Skydance Media e a Paramount Global já haviam se fundido em 7 de agosto de 2025, em um acordo de US$ 8 bilhões, posicionando a nova entidade como uma força considerável. Ellison defende que "os acionistas da WBD merecem a oportunidade de considerar nossa oferta superior em dinheiro por suas ações em toda a empresa", prometendo "valor superior e um caminho mais certo e rápido para a conclusão", conforme comunicado oficial da Paramount Skydance. A ironia reside na retórica: a fusão, apresentada como pró-competitiva, arrisca reforçar o poder dos gigantes já estabelecidos. É um leilão de ativos onde a promessa de competição se dilui na inevitabilidade da concentração.
A Maré da Consolidação e Seus Efeitos
O setor de mídia navega uma maré de consolidação. A Lei de Telecomunicações de 1996, nos Estados Unidos, flexibilizou limites de propriedade, pavimentando o caminho para megaconglomerados. Empresas como a Disney, com sua aquisição da 21st Century Fox, e a própria fusão da WarnerMedia com a Discovery, ilustram essa busca incessante por escala. A lógica é simples: em um mercado fragmentado por centenas de serviços de streaming, a união de catálogos e bases de assinantes promete diluir custos de produção e marketing, além de aumentar o poder de barganha com distribuidores e anunciantes.
A busca por escala, porém, carrega um custo oculto. Uma leitura menos óbvia revela que a fusão não garante inovação ou diversidade de conteúdo. Pelo contrário, a pressão por rentabilidade em um gigante recém-formado muitas vezes leva à padronização de narrativas e à aversão a riscos criativos, priorizando franquias estabelecidas em detrimento de novas vozes. O que se ganha em volume, pode-se perder em originalidade, transformando o vasto oceano de conteúdo em um lago de produções homogêneas.
Impacto para Criadores e Consumidores
Para os criadores de conteúdo, a concentração significa menos compradores para suas ideias. Um roteirista independente em Los Angeles, antes com uma dúzia de portas para bater, agora se vê diante de apenas três ou quatro conglomerados que dominam o financiamento e a distribuição. Essa redução de opções pode sufocar a experimentação e forçar os talentos a se adequarem a fórmulas pré-aprovadas pelos grandes estúdios, conforme apontado por análises da Writers Guild of America. Já para o consumidor, a promessa de um catálogo mais vasto pode se traduzir em menos escolhas reais, com preços de assinatura que, em vez de diminuírem pela economia de escala, sobem para justificar os investimentos bilionários.
No Brasil, a consolidação global se reflete na oferta local. Um novo gigante como a Paramount Skydance-WBD teria um poder de negociação sem precedentes com operadoras de TV a cabo e provedores de internet, podendo ditar termos de distribuição que impactam diretamente o custo e a disponibilidade dos serviços para o assinante final. Isso pode levar a pacotes mais caros ou a uma menor flexibilidade na escolha de plataformas, segundo projeções da consultoria Teleco.
Caminhos à Frente e o Olhar Regulatório
A aprovação regulatória será o principal obstáculo. A Comissão Federal de Comércio (FTC) e o Departamento de Justiça dos EUA, sob uma administração que tem demonstrado maior rigor antitruste, analisarão a fusão com lupa. A aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft, que enfrentou resistência significativa, serve como um precedente. Os reguladores questionarão se a união de ativos tão vastos, de estúdios de cinema a canais de TV e plataformas de streaming, não sufocará a concorrência e limitará as opções do consumidor. A tese de Ellison de que a fusão é para competir com Netflix e Disney pode não ser suficiente para convencer um órgão preocupado com o poder de mercado concentrado.
O Meridian Ledger assume uma postura clara: a busca desenfreada por escala, embora compreensível na lógica capitalista, precisa ser contida. A promessa de um "desafio à hegemonia" soa oca quando o resultado mais provável é a criação de uma nova hegemonia, ainda mais robusta e difícil de desmantelar. A verdadeira inovação e a diversidade de vozes raramente florescem sob o peso de conglomerados gigantescos. O futuro do entretenimento digital não reside na mera fusão de impérios, mas na capacidade de nutrir ecossistemas vibrantes e abertos, onde a criatividade, e não apenas o capital, dita as regras.
Redação The Meridian
