Após cortes em 2025, o Federal Reserve mantém taxas elevadas, recalibrando o custo do capital e forçando empresas e investidores a reescreverem suas estratégias de dívida e alocação global.
Por Redação The Meridian
O Peso Renovado do Capital
A economia global, acostumada à gravidade zero do capital abundante, agora sente o peso renovado do dinheiro caro. Em dezembro de 2025, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) cortou a meta para a taxa de juros dos fed funds em 25 pontos-base (bps), estabelecendo-a entre 3,50% e 3,75%. Foi o terceiro corte consecutivo no ano passado, totalizando 75 bps de redução. Ainda assim, o patamar redefine o custo do financiamento.
A decisão não foi unânime. O Governador Stephen Miran defendeu um corte mais agressivo de 50 bps, enquanto Austan Goolsbee e Jeffrey Schmid preferiram manter a taxa inalterada. Essa divisão interna no banco central americano sublinha a incerteza. Mesmo com a flexibilização, a era do capital ultrabarato é uma memória distante. Ainda assim, isso exige uma reavaliação fundamental das estratégias de investimento e dívida corporativa, remodelando a alocação de capital globalmente.
O Fim da Liquidez Fácil
O cenário pré-2022 moldou uma geração de gestores e investidores. Por anos, a economia global nadou em liquidez farta, impulsionada por políticas monetárias expansionistas pós-crise financeira de 2008. Essa abundância inflou valuations, aumentou dívidas corporativas e incentivou o crescimento a qualquer custo.
A inflação pós-pandemia, mas, inverteu a corrente. O Federal Reserve elevou as taxas de juros a níveis não vistos em décadas, atingindo um pico em 2022, o mais alto desde 2008. Essa mudança não é um ajuste cíclico, mas uma alteração estrutural no mercado financeiro.
A postura do Fed diverge de outros grandes bancos centrais. O Banco Central Europeu (BCE) iniciou cortes de juros de seus picos cíclicos em meados de 2024, agindo mais rapidamente e profundamente que o Fed. Na América Latina, o Banco Central do Brasil manteve a Selic elevada. Gabriel Galípolo, seu presidente, declarou em maio de 2025 a necessidade de juros altos por um período prolongado. A Selic, que estava em 14,75% em maio de 2025, foi mantida em 15% em dezembro de 2025 pela quarta decisão consecutiva. A inflação anual do Brasil, 5,53% em abril de 2025, desacelerou para 4,46% em novembro de 2025, ainda acima da meta de 3%.
O Descompasso entre Fed e Mercado
A orientação futura do FOMC, que agora referencia "a extensão e o timing" de ajustes adicionais, sinaliza flexibilidade calculada e cautela profunda. O 'dot plot' mais recente do FOMC sugere apenas um corte de taxa em 2026. Essa projeção contrasta com as expectativas do mercado.
Ferramentas como o CME FedWatch e o Polymarket indicam dois a três cortes de 25 pontos-base em 2026, levando a taxa para 3% a 3,25%. Grandes bancos de investimento ecoam esse otimismo. O Goldman Sachs Research, por exemplo, projeta dois cortes de 25 bps em março e junho de 2026, com a taxa caindo para 3%-3,25% após uma pausa em janeiro. Barclays e J.P. Morgan Global Research também preveem mais 50 bps de cortes em 2026.
Essa dicotomia entre a projeção oficial do Fed e a do mercado sugere que investidores subestimam a resiliência do Fed em manter uma postura mais restritiva. Fatores políticos e institucionais adicionam complexidade. O mandato de Jerome Powell, presidente do Fed, expira em maio de 2026. A nomeação de seu sucessor por Donald Trump, no início de janeiro de 2026, será um evento chave. A entrada de quatro novos presidentes regionais no painel do FOMC em janeiro de 2026 pode reconfigurar o equilíbrio de poder e influenciar futuras decisões.
As projeções de inflação também divergem. O FOMC reduziu sua previsão de inflação Core PCE para 2,5% em 2026. Economistas da Vanguard esperam 2,6% para o mesmo período. O BCE encerrou 2025 com taxas inalteradas, com projeções de inflação próximas a 2% até 2028. O Copom espera inflação brasileira de 3,5% em 2026, com a Selic em 12,25% ao final do ano.
O Capital se Reposiciona
A persistência dos juros altos do Fed redireciona o capital global, forçando uma reavaliação estratégica. Empresas com balanços alavancados, acostumadas ao financiamento barato, enfrentam um custo de dívida significativamente maior. Isso impacta margens e planos de expansão. O mercado de M&A já reflete isso: fundos de private equity, sem o baixo custo da dívida, viram o valor global de M&A apoiado por patrocinadores aumentar em 58% em relação ao terceiro trimestre de 2024, mas sob novas condições.
O crescimento global, projetado em 2,8% em 2026 pelo Goldman Sachs Research (contra um consenso de 2,5%), ainda carrega incertezas. A economia dos EUA, que acelera para 2,6% em 2026, pode não ser imune a choques. O J.P. Morgan Global Research, por exemplo, prevê 35% de probabilidade de recessão nos EUA e global em 2026.
Regiões distintas se posicionam de maneiras diferentes. América Latina, e o Brasil em particular, emergem como mercados promissores. Suas altas taxas de juros, inflação moderada e um potencial ciclo de flexibilização atraem capital em busca de rendimento. Na Europa, os cortes de juros mais rápidos e profundos do BCE direcionam o interesse de investidores internacionais para o setor imobiliário, beneficiado por um custo de capital relativamente mais baixo.
Vencedores e Perdedores
A reconfiguração do capital cria vencedores e perdedores claros.
Vencedores:
- Empresas com Balanços Sólidos: Companhias com pouca dívida e forte geração de caixa resistem melhor a custos de financiamento elevados. Podem até adquirir concorrentes mais alavancados.
- Zona do Euro e Mercados Emergentes: Regiões com bancos centrais mais agressivos nos cortes (BCE) ou com diferenciais de juros favoráveis (Brasil) atraem capital.
- Investidores em Renda Fixa: O retorno dos títulos de dívida se torna mais atraente em juros elevados, oferecendo alternativas ao risco de ações.
Perdedores:
- Empresas Altamente Alavancadas: Companhias dependentes de dívida barata enfrentam custos de rolagem proibitivos, ameaçando sua viabilidade.
- Setores Sensíveis a Juros: Startups e empresas de tecnologia, que dependem de financiamento de risco e projeções de crescimento, são penalizadas pelo custo do capital.
- Países com Alta Dívida em Dólar: Moedas locais fracas e dívida em dólar tornam-se um fardo insustentável, especialmente em economias emergentes.
A dinâmica cambial espelha essa reconfiguração. O dólar enfraqueceu em 2025, registrando a maior queda desde 2017. O J.P. Morgan Global Research projeta pessimismo para 2026. O euro, em contraste, mostra otimismo moderado. No Brasil, o diferencial de juros deve manter o real valorizado, mesmo com o início do ciclo de afrouxamento monetário.
Sinais no Radar para 2026
O ano de 2026 será decisivo para a consolidação desta nova ordem de capital. A nomeação do novo presidente do Fed por Donald Trump, esperada para o início de janeiro, será um evento chave, com potencial para redefinir a postura do banco central. A atuação dos quatro novos presidentes regionais do Fed no FOMC, a partir de janeiro, também merece atenção, pois podem alterar o equilíbrio de votos.
Monitorar os dados de inflação, especialmente o Core PCE, e o desemprego nos EUA é crucial para antecipar os próximos passos do Fed. As eleições presidenciais nos EUA em 2026 e as potenciais políticas tarifárias de Donald Trump são fatores de volatilidade nos mercados globais. A inteligência artificial, por sua vez, pode redefinir produtividade e investimento em 2026, testando a capacidade dos bancos centrais de gerenciar a inflação.
O Ponto Final
A postura do Federal Reserve de manter juros elevados não é um desvio temporário, mas uma reconfiguração fundamental do cenário de capital global. A economia, que se habituou à bonança, agora precisa recalibrar suas expectativas para um período prolongado de custos de financiamento elevados. Adaptação estratégica e resiliência financeira serão os pilares para empresas e investidores. O Fed tenta gerenciar uma economia do século XXI com ferramentas do século XX. E, nesse tipo de disputa, quem carrega o peso da inércia costuma ser o primeiro a sentir o impacto.
Fontes
- CME FedWatch
- Polymarket
- Goldman Sachs Research
- Barclays
- J.P. Morgan Global Research
- Banco Central Europeu (BCE)
- Banco Central do Brasil (Copom)
- Vanguard
- Morningstar
