A capital catarinense, com sua vibrante comunidade e qualidade de vida invejável, atrai talentos, mas sua própria coesão local se revela uma âncora para a ambição global. Este paradoxo ameaça sua ascensão a um polo de inovação internacional, mantendo-a em um ciclo de sucesso regional que não se traduz em escala global.
Por Redação The Meridian
A Coesão Local como Freio à Expansão
Florianópolis, apesar de um notável florescimento impulsionado pela coesão comunitária e saídas expressivas, corre o risco de se tornar um celeiro de talentos que alimenta outros mercados em vez de consolidar seu próprio poder. A tese do Meridian é clara: a cidade, com seu ecossistema dinâmico, enfrenta um paradoxo onde o sucesso local pode, ironicamente, limitar sua ambição global. Sem resolver a lacuna de capital inicial e adotar uma estratégia de globalização mais audaciosa, o potencial de Florianópolis para se firmar como um polo internacional de inovação se esvai.
O sucesso alicerçado na comunidade e na qualidade de vida, embora seja um pilar, gera um desafio à globalização. Em 2025, a urgência é palpável: o relatório "Assessment of the Florianópolis Startup Ecosystem" da Startup Genome, divulgado em julho, posiciona a cidade na fase de "Ativação Avançada", à beira da "Fase de Globalização". A estagnação no financiamento nos últimos dois anos torna essa transição um imperativo estratégico.
Ascensão e Recuo: O Trajeto de um Ecossistema
O ecossistema de Florianópolis construiu uma trajetória notável, pontuada por marcos significativos. Em 2021, a cidade registrou duas saídas acima de US$ 100 milhões: a RD Station, adquirida por US$ 354 milhões, e a Neoway, por US$ 327 milhões. Esses eventos solidificaram a reputação da capital catarinense como um centro de inovação no Brasil, atraindo olhares e capital.
Esse sucesso, porém, não se repetiu nos anos seguintes. Nenhuma saída acima de US$ 100 milhões foi registrada em Florianópolis em 2022, 2023 ou 2024, segundo dados da Startup Genome. A cidade abriga entre 700 e 800 startups, conforme estimativas do SEBRAE. A meta para a globalização, entretanto, exige mais de mil startups e um fluxo consistente de US$ 100 milhões anuais em saídas, um patamar que a ilha não alcançou recentemente.
Apesar da estagnação nas grandes saídas, a cidade continua a ser um ímã para talentos. Cerca de 34% dos fundadores de startups se mudaram de outras regiões do Brasil para a ilha, e 96% planejam permanecer, impulsionados pela alta qualidade de vida. "A maioria de nós escolhe viver aqui por causa da incrível qualidade de vida que temos", afirmou um fundador local em entrevista ao Startup Genome. Outro complementou: "Você quer viver aqui. Não há outro lugar no Brasil como este." A densidade do ecossistema também é um fator, com a facilidade de networking permitindo que "continuemos nos vendo", segundo um empresário da região.
A Armadilha do Capital e a Visão Limitada
Florianópolis captou US$ 329 milhões em financiamento total (Venture Funding) entre 2020 e 2024, posicionando-se como o 5º ecossistema mais financiado e o 3º em volume de deals no Brasil, segundo o relatório da Startup Genome. Mas o financiamento anual registrou uma queda drástica e preocupante: de US$ 125 milhões em 2022 para US$ 48 milhões em 2023, e apenas US$ 37 milhões em 2024, retornando aos níveis de 2020. O volume de rodadas também diminuiu, de 49 em 2022 para 20 em 2024.
Essa desaceleração revela uma "lacuna de Série A" marcante. A mediana de rodadas Seed é de US$ 372.552, enquanto a de Série A é de apenas US$ 3.000.000. A escassez de capital inicial em estágios mais avançados força startups a buscar investimento fora da ilha, o que muitas vezes resulta em saídas menores, na faixa de US$ 10-15 milhões, limitando o potencial de crescimento e valorização.
A mentalidade dos investidores locais, por vezes, desestimula a ambição global. "Os fundadores afirmaram que não pensam globalmente e atribuíram isso parcialmente a uma falta coletiva de ambição e, às vezes, ao desestímulo de investidores", aponta o relatório da Startup Genome. Isso se reflete na baixa proporção de clientes internacionais (apenas 15% fora do país e 12% fora do continente) e na pouca ambição global desde o início, com apenas 4% das startups visando mercados globais.
A falta de viagens e conexões internacionais dos fundadores, que têm em média 1.9 conexão com ecossistemas de ponta, limita o conhecimento estratégico global. O ecossistema é predominantemente B2B, com destaque para Software Empresarial, AI/ML, Fintech, Real Estate & PropTech (18% das empresas financiadas) e Energy & Environmental Tech (13%). Todas as startups utilizam IA, e 74% a incorporam em seu modelo de negócios. A maturidade dos fundadores (idade média de 40 anos, 80% com 30+), alta formação técnica (95%) e experiência em negócios (93%) e empreendedorismo (66%) indicam um capital humano qualificado, mas subaproveitado em escala global.
O Preço da Coesão Local: Insularidade e Retenção
A forte coesão comunitária de Florianópolis, embora seja um ativo valioso, pode criar uma insularidade que limita a visão para mercados internacionais, resultando em menor escala e alcance. A rede de apoio local, por vezes, restringe a visão para além das fronteiras, conforme observado pelo Startup Genome. A coesão local, que outrora serviu de berço para a inovação, hoje se assemelha a uma redoma de vidro, protegendo, mas também isolando a ilha das correntes mais amplas do capital e da ambição global.
A lacuna de financiamento em estágios iniciais é um ponto crítico. A busca por capital fora da cidade pode levar a saídas precoces, limitando o retorno para grandes rodadas e gerando uma pressão por lucratividade rápida em detrimento do crescimento e da escala. Essa dinâmica impede que as startups locais atinjam seu potencial máximo de valorização.
Outro obstáculo significativo é a baixa oferta de stock options – apenas 2% das startups em Florianópolis as oferecem a todos os funcionários. Essa prática dificulta a "reciclagem de sucesso" no ecossistema, onde fundadores e funcionários de startups bem-sucedidas reinvestem seu capital e conhecimento em novas ventures. A ausência de um arcabouço legal claro para stock options no Brasil, e os baixos valores de saída, agravam essa questão, desincentivando a retenção de talentos e a criação de um ciclo virtuoso de reinvestimento.
Imagine um engenheiro de software talentoso, com experiência em startups, que participa de uma saída modesta em Florianópolis. Em vez de reinvestir seu capital e know-how na própria ilha, ele é atraído por ecossistemas com maior liquidez e mecanismos de incentivo mais robustos, como o Vale do Silício ou Lisboa, onde as stock options são um pilar da cultura de inovação. Florianópolis perde não apenas o capital financeiro, mas o capital humano e o conhecimento estratégico para futuras gerações de startups, enfraquecendo sua base a longo prazo.
Quem Ganha, Quem Perde na Ilha
Quem Ganha:
- A comunidade local de Florianópolis: Beneficia-se da alta qualidade de vida e do forte senso de comunidade, com 85% mais apoio entre fundadores e 23% mais apoio de investidores/especialistas em comparação com a média de ecossistemas similares, segundo o Startup Genome. A retenção de talentos é notável, com 96% dos fundadores planejando permanecer na cidade.
- Empresas B2B com foco nacional: Prosperam no ambiente coeso e com acesso a talentos experientes. 55% dos engenheiros e 60% dos funcionários de crescimento possuem pelo menos dois anos de experiência em startups, garantindo uma base de mão de obra qualificada.
- Instituições de ensino e pesquisa locais: Com 8 matérias top-rankeadas no Shanghai Rankings e uma produção robusta de patentes (256 pedidos de IES, 240 da indústria), continuam a alimentar o ecossistema com capital intelectual qualificado, mantendo a ilha como um centro de excelência acadêmica.
Quem Perde:
- Startups com ambição global: Limitadas pela lacuna de capital Série A, pela mentalidade local de investidores e pela baixa conexão com ecossistemas internacionais. Apenas 4% visam mercados globais desde o início e 15% têm clientes fora do país, o que restringe seu potencial de escala.
- O próprio ecossistema de Florianópolis a longo prazo: Perde a oportunidade de escalar e gerar saídas de maior valor, arriscando-se a se tornar um celeiro que nutre outros mercados em vez de consolidar seu próprio poder de inovação e gerar riqueza localmente.
- Funcionários de startups: A baixa oferta de stock options (apenas 2% das startups) e a complexidade legal impedem a criação de riqueza e o reinvestimento no ecossistema, quebrando o ciclo virtuoso de "reciclagem de sucesso" e desincentivando a permanência de talentos em ventures locais.
Próximos Movimentos: Sinais de Globalização
Para Florianópolis transcender sua fase atual, alguns indicadores serão cruciais nos próximos 12 a 24 meses. É fundamental monitorar o volume e o valor das rodadas de investimento, especialmente em Série A e B. Um aumento sustentado indicaria que a lacuna de capital está sendo superada, revertendo a queda de financiamento anual, que foi de US$ 37 milhões em 2024, segundo o Startup Genome.
O número de saídas acima de US$ 100 milhões precisa se tornar consistente. A recorrência dessas saídas é crucial para a transição para a fase de globalização, conforme a meta estabelecida pela Startup Genome. Acompanhar o percentual de startups que visam mercados globais desde o início, e a proporção de clientes internacionais (atualmente 4% e 15%, respectivamente), sinalizará uma mudança de mentalidade e estratégia.
Será importante verificar iniciativas para melhorar o arcabouço legal de stock options e a adoção dessas práticas pelas startups. Isso poderia impulsionar a "reciclagem de sucesso" e a retenção de talentos, hoje limitada pela oferta de apenas 2% das empresas. Por fim, a investigação de parcerias e programas que conectem fundadores de Florianópolis a ecossistemas globais, como missões internacionais ou programas de aceleração com foco em expansão, será um termômetro da ambição da cidade.
Além da Ilha: O Imperativo da Ambição Global
Florianópolis possui os ingredientes para ser um polo global de inovação. Sua coesão local e a qualidade de vida, embora valiosas, não podem ofuscar a necessidade de uma visão e capital globalizados. A ilha, com sua beleza e talento, corre o risco de se tornar uma joia isolada, admirada de longe, mas incapaz de projetar sua luz para além de suas praias. Sem uma estratégia audaciosa para atrair capital Série A e fomentar uma mentalidade de expansão internacional, o ecossistema corre o risco de permanecer um celeiro de talentos, alimentando o crescimento de outros centros.
O futuro de Florianópolis como um player global dependerá da sua capacidade de transcender as fronteiras da "Ilha da Magia" e abraçar o mundo. Florianópolis tenta construir um polo global com uma mentalidade local. E, nesse tipo de ambição, quem não olha para fora corre o risco de ser apenas uma bela paisagem no mapa dos outros.
Referências
- Startup Genome: "Assessment of the Florianópolis Startup Ecosystem" (Julho de 2025)
- SEBRAE: Estimativas sobre o número de startups em Florianópolis
- Dados de mercado e aquisições (RD Station, Neoway)
- Citações de fundadores locais (conforme fornecido na pesquisa)
