A padronização técnica apresentada na NRF 2026 marca a transição do varejo visual para a execução autônoma por agentes de software.
Na abertura da NRF Retail's Big Show 2026, realizada hoje no Jacob K. Javits Convention Center, em Nova York, o Google e um consórcio de varejistas globais — incluindo nomes como Walmart, Carrefour e Target — apresentaram o Universal Commerce Protocol (UCP). O lançamento sinaliza um movimento estrutural: a disputa pelo domínio do consumo global deixou a camada de interface e migrou para a camada de protocolo. O varejo centrado no clique está sendo substituído por um modelo de execução agêntica, no qual a padronização técnica é o requisito fundamental para a viabilidade comercial.
A tese central do UCP é que a jornada de compra humana se tornou um gargalo para a eficiência do capital. Ao estabelecer uma linguagem comum para que agentes de diferentes ecossistemas negociem entre si, o Google tenta consolidar a infraestrutura do comércio autônomo. O objetivo não é apenas facilitar a compra, mas transformá-la em uma transação de máquina para máquina (M2M). Variáveis como preço, frete e disponibilidade são resolvidas em milissegundos, sem a necessidade de renderização de páginas web. No varejo agêntico, o marketing não é mais uma conversa com o desejo, mas uma negociação com a latência.
A herança do AP2 e a liquidação do atrito
O UCP é o sucessor direto do Agentic Payments Protocol (AP2), registrado pelo Google em 2025. Enquanto o AP2 focava na autorização financeira entre sistemas autônomos, o novo protocolo expande essa lógica para todo o ciclo comercial. Ele funciona como uma camada de abstração que traduz catálogos complexos em parâmetros legíveis por qualquer agente de inteligência artificial habilitado. Em 2025, o Google registrou que transações iniciadas por agentes cresceram 412% em ambientes controlados; o UCP é a tentativa de levar essa escala para o mercado aberto.
Este movimento é uma resposta ao sistema "Instant Checkout" da OpenAI, lançado em setembro de 2025. Naquele momento, a OpenAI fragmentou o mercado ao criar um ambiente de compra proprietário e fechado. O Google, ao liderar o UCP, busca reverter essa fragmentação por meio de um padrão de interoperabilidade. A estratégia é pragmática: na impossibilidade de controlar todos os agentes, controla-se o protocolo pelo qual todos devem transitar para liquidar uma venda. Segundo dados da Morningstar, a padronização pode reduzir os custos operacionais do varejo em até 18% até o final de 2026.
A engenharia da invisibilidade: o funcionamento do UCP
Tecnicamente, o UCP desloca o foco da interface do usuário (UI) para a eficiência de comunicação entre APIs. Em vez de um agente de IA simular um humano navegando em um site — processo lento e sujeito a erros de interpretação —, ele se comunica diretamente com o endpoint UCP do varejista. O protocolo define esquemas rígidos de dados para consulta de inventário, aplicação de descontos dinâmicos e cálculos logísticos em tempo real. No formulário 8-K enviado à SEC, o Google detalhou que o UCP utiliza uma arquitetura de zero-knowledge proof para validar a solvência do comprador sem expor dados sensíveis.
A redução da latência é o principal indicador de sucesso. Nas especificações técnicas apresentadas na NRF 2026, o Google demonstrou que transações via UCP eliminam o atrito do funil de conversão tradicional. Não há "carrinho de compras" ou "checkout" no sentido convencional. A transação é uma chamada de função única que liquida a compra assim que os parâmetros de negociação — como preço máximo e prazo mínimo — são satisfeitos pelo vendedor. Para o varejista, isso significa que a vitrine digital tornou-se um subproduto; o verdadeiro ativo é a integridade da API.
Essa mudança exige que os varejistas abandonem sistemas legados dependentes de atualizações de estoque em lote. Para operar no UCP, a infraestrutura de dados precisa ser reativa e capaz de suportar milhares de consultas por segundo. Na prática, a eficiência do back-end tornou-se o principal diferencial competitivo, superando o design da vitrine digital. Um exemplo concreto é a rede Target, que reformulou seus centros de distribuição em 2025 para responder a requisições de inventário em menos de 15 milissegundos.
Agent Engine Optimization (AEO): O novo marketing
A adoção do UCP impõe uma exigência técnica rigorosa sobre a qualidade dos dados. Agentes de IA operam com base em parâmetros lógicos; se um varejista informa um dado impreciso sobre a disponibilidade de um produto, o protocolo penaliza a reputação daquele endpoint, reduzindo sua prioridade em futuras consultas. A precisão absoluta do inventário em tempo real deixou de ser uma meta operacional para se tornar uma condição de existência. O erro de um dígito no estoque pode significar a exclusão técnica de um marketplace inteiro.
Isso força uma evolução no marketing digital, que transita do SEO visual para o Agent Engine Optimization (AEO). No AEO, o objetivo não é atrair o olhar humano com imagens, mas otimizar os metadados para que os algoritmos de decisão classifiquem o produto como a melhor opção técnica. Para o varejo brasileiro, a urgência reside na digitalização profunda do back-end. Empresas que operam com silos de dados isolados serão tecnicamente incapazes de se integrar ao fluxo de consumo agêntico. A integração com o Pix, que já é uma realidade, serve como a fundação financeira para que o UCP encontre tração imediata no Brasil.
Quem Ganha, Quem Perde
Posicionamentos favoráveis:
- Google: Consolida sua posição como provedor da infraestrutura técnica essencial, orquestrando o tráfego de transações autônomas e capturando dados de intenção em nível de protocolo.
- Varejistas de Alta Performance: Empresas com APIs robustas e inventário em tempo real ganham prioridade imediata. O Walmart, por exemplo, já integrou 90% de seu catálogo ao UCP durante a fase beta no final de 2025.
- Consumidores de Conveniência: A automação de compras recorrentes (produtos de limpeza, alimentos básicos) elimina a carga cognitiva do consumo de baixo envolvimento.
Desafios de adaptação:
- Agências de Publicidade Tradicionais: Modelos baseados em interrupção visual e criatividade emocional perdem tração quando o comprador é um algoritmo programado para otimizar o custo-benefício.
- Marketplaces de Longa Cauda: Pequenos vendedores sem infraestrutura para responder a requisições de API em milissegundos correm o risco de invisibilidade técnica.
- Marcas de Luxo e Impulso: Produtos que dependem da experiência estética e do desejo imediato terão de encontrar novas formas de "hackear" os parâmetros de preferência dos agentes.
Próximos Movimentos
- Adoção em Massa: A velocidade com que varejistas de médio porte atualizarão seus back-ends para o padrão UCP até o final do primeiro semestre de 2026 determinará a fragmentação do mercado.
- Resposta de Apple e Amazon: Ambos possuem ecossistemas fechados. A Amazon, em particular, enfrenta o dilema de abrir seu inventário para agentes externos via UCP ou manter o controle total sobre a experiência do usuário, arriscando-se a ficar fora do protocolo universal.
- Regulamentação e Responsabilidade: O surgimento de debates jurídicos sobre a responsabilidade civil em compras efetuadas por agentes sem confirmação biométrica humana. Em 2025, a União Europeia começou a rascunhar a "Lei de Responsabilidade Agêntica", que deve ser votada ainda este ano.
A eficiência como destino final
O Universal Commerce Protocol não é apenas uma ferramenta de integração; é a fundação de uma economia na qual o varejo deixa de ser sobre "onde comprar" para ser sobre "quem executa melhor". A automação do ciclo de consumo ganhou hoje seu principal pilar técnico. No varejo agêntico, a fidelidade não pertence à marca, mas ao sistema que encontra a menor latência entre o desejo e a entrega. O Google busca transformar o consumo em uma commodity de infraestrutura, em que a capacidade do servidor de responder com precisão importa mais do que qualquer campanha de marketing tradicional. A era do varejo como espetáculo visual está sendo eclipsada pela era do varejo como serviço de utilidade invisível.
***
Redação The Meridian
