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Trump e o Petróleo Venezuelano: Uma Doutrina Monroe com Punho de Ferro

Washington impõe sua agenda energética, redefinindo soberania e poder regional com táticas que ecoam o século XIX.

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Donald Trump, de volta à Casa Branca em 2025, não apenas reescreve a Doutrina Monroe; ele a arma com um punho de ferro, transformando o petróleo venezuelano no primeiro grande teste de sua política externa de "América Primeiro". A apreensão de petroleiros e as ameaças diretas a Nicolás Maduro em dezembro de 2025 não são meros gestos eleitorais, mas a manifestação de uma estratégia calculada para remodelar o fluxo global de energia e a balança de poder regional. Esta não é uma diplomacia de negociação, mas de imposição, onde a soberania se torna uma ficha de barganha em um jogo de alto risco.

Os movimentos de dezembro de 2025, intensos e agressivos, indicam uma transição da diplomacia tradicional para a coerção direta. Em um mercado global já tenso, onde a segurança energética é uma moeda de valor inestimável, a Venezuela emerge como o epicentro de um período de assertividade americana.

O Petróleo como Martelo: A Doutrina Monroe Revisitada

A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, totalizando 303 bilhões de barris, o que representa 17% do volume global conhecido, segundo dados da Energy Information Administration (EIA). Essa riqueza, um verdadeiro rio de ouro negro, sempre foi um ponto de atrito geopolítico. Em 2007, Hugo Chávez nacionalizou campos de petróleo, confiscando ativos de empresas americanas e europeias, um movimento que Caracas justificou como reafirmação de soberania sobre seus recursos naturais.

Washington respondeu em 2019 com um embargo abrangente, buscando asfixiar a economia venezuelana, que dependia quase totalmente do petróleo – 96% das receitas nacionais antes do bloqueio. A China, no entanto, emergiu como o principal comprador, importando mais de 600 mil barris por dia em dezembro de 2025 e respondendo por 80% das compras, conforme dados de comércio internacional. As ações recentes de Trump, como a apreensão do petroleiro Centuries próximo à costa venezuelana em dezembro de 2025, ressuscitam a Doutrina Monroe do século XIX, mas com uma interpretação que vai além da mera não-intervenção europeia, reafirmando a hegemonia americana na região através da força econômica e militar.

A Negociação Trumpiana: Soberania como Ativo Transacionável

O estilo de Donald Trump é inconfundível: agressivo, combativo e centralizador. Sua filosofia prioriza ambições e lealdade, muitas vezes em detrimento da competência técnica, uma abordagem forjada por mentores como Roy Cohn, que o moldou como o negociador implacável descrito em seu livro "A Arte da Negociação" (1987). Para Trump, a política externa é uma extensão direta dos negócios: um jogo de soma zero onde o objetivo é extrair a máxima vantagem, sem concessões.

A bravata não é aleatória; é uma estratégia calculada para testar limites, desestabilizar o status quo e forçar concessões. Em 17 de dezembro de 2025, ele exigiu a devolução de "terras, direitos petrolíferos, o que quer que tivéssemos" aos EUA, uma declaração que trata a soberania de uma nação como um ativo transacionável. Dois dias depois, em 19 de dezembro de 2025, afirmou que a guerra com a Venezuela "permanecia na mesa", elevando o tom a um patamar de ameaça militar explícita. Esta postura unilateral marcou seu primeiro mandato, com a saída dos EUA de tratados como o Acordo Transpacífico e o Acordo de Paris, e agora se intensifica.

Com colaboradores como Elon Musk – que apoiou sua candidatura em 2024 e co-lidera o novo Departamento de Eficiência Governamental –, Trump inclina-se ainda mais a redefinir o acesso a recursos energéticos globais. O petróleo venezuelano, com os 1,8 milhão de barris do petroleiro Centuries apreendido em dezembro de 2025, torna-se uma alavanca poderosa. A diplomacia tradicional cede lugar à demonstração de força para reequilibrar a influência na América Latina. Paradoxalmente, essa agressão, embora visando a segurança energética dos EUA, pode acelerar a desdolarização do comércio de petróleo e fortalecer alianças anti-EUA, minando a hegemonia de longo prazo que Trump busca afirmar.

Reverberações Globais: De Pequim a Brasília

As ações de Trump na Venezuela provocam reverberações que se estendem da geopolítica aos mercados globais. A apreensão do petroleiro Centuries, carregado com petróleo destinado à China, expõe as tensões latentes entre EUA e China. Pequim, como principal importador do óleo venezuelano, enfrenta uma interrupção direta em seu fornecimento, o que pode elevar custos de energia e forçar uma reavaliação de suas cadeias de fornecimento globais, impactando diretamente os preços do petróleo e a estabilidade econômica chinesa. A China já sinalizou que considera as apreensões uma violação do direito internacional, prometendo "medidas necessárias" para proteger seus interesses comerciais, segundo declarações do Ministério das Relações Exteriores chinês em 22 de dezembro de 2025.

Na América Latina, a estabilidade regional é severamente testada. A retórica de Trump, incluindo a afirmação de que a guerra "permanecia na mesa" em 19 de dezembro de 2025, eleva o risco de escalada militar para níveis perigosos. Nicolás Maduro classificou a apreensão como "roubo descarado" e "pirataria naval criminosa", denunciando interferência brutal e violação da soberania. Esse confronto, mesmo retórico, agrava a crise econômica e humanitária venezuelana, isolando ainda mais o país e impactando sua população já fragilizada. O bloqueio de Trump a petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela intensifica a pressão, cortando lifelines essenciais. Países como o Brasil, que historicamente buscam estabilidade regional, veem-se em uma posição delicada, equilibrando relações com Washington e a preocupação com a escalada de um conflito em sua fronteira.

Quem Ganha, Quem Perde no Xadrez Geopolítico

As manobras de Trump na Venezuela já definem um cenário claro de ganhadores e perdedores no xadrez geopolítico, mas com nuances que desafiam a simplicidade.

Os Estados Unidos buscam um potencial acesso a recursos energéticos, reafirmação de influência regional e demonstração de força, conforme a exigência de Trump de devolução de "terras, direitos petrolíferos" aos EUA. A curto prazo, a base política de Trump percebe uma liderança forte e decisiva, cumprindo promessas de "America First" e consolidando o apoio de seus eleitores. Essa agressão, a longo prazo, pode gerar custos diplomáticos e econômicos significativos, alienando aliados e incentivando a busca por alternativas ao dólar no comércio de energia.

A Venezuela enfrenta um agravamento sem precedentes de sua crise econômica, perda de soberania e isolamento internacional, com Maduro classificando as apreensões como "roubo descarado" e "pirataria naval criminosa". A população venezuelana, já sob forte pressão humanitária, sofrerá as consequências mais diretas do endurecimento do bloqueio e da instabilidade. A China, por sua vez, sofre interrupção no fornecimento de petróleo, aumento de custos e tensões geopolíticas, dado que responde por cerca de 80% das compras de petróleo venezuelano. Pequim pode ser forçada a reavaliar suas rotas comerciais e fontes de energia, mas também pode usar a situação para fortalecer narrativas anti-ocidentais e buscar maior autonomia em suas relações comerciais. A Estabilidade Regional da América Latina é a grande perdedora, com o aumento da incerteza e o risco de conflito, com a possibilidade de escalada militar explicitamente mencionada por Trump, criando um precedente perigoso para a resolução de disputas territoriais e de recursos.

Próximos Movimentos e Riscos

A política externa de Trump na Venezuela é volátil e imprevisível, e os próximos meses de 2026 serão cruciais para definir suas intenções e consequências. A continuidade das apreensões de petroleiros ou a implementação de bloqueios navais mais amplos na costa venezuelana, conforme a ordem de Trump para bloquear petroleiros sancionados, será um indicador chave da intensidade da campanha. A resposta da China, que importava mais de 600 mil barris por dia de petróleo venezuelano em dezembro de 2025, e de outros parceiros comerciais da Venezuela, como a Rússia e o Irã, será decisiva para o equilíbrio de poder. Acompanhar as declarações e ações de Nicolás Maduro, bem como a resposta interna na Venezuela a essa pressão externa, revelará a resiliência do regime. Os mercados de petróleo, por sua vez, permanecerão em alerta máximo, com a volatilidade ditada por cada movimento de Washington.

A postura de Washington, ao tratar a soberania de uma nação como um ativo transacionável e a ameaça militar como uma ferramenta legítima, não apenas desestabiliza a América Latina, mas também erode a arquitetura do direito internacional, abrindo precedentes perigosos para futuras disputas por recursos. O petróleo venezuelano, antes um rio de riqueza para Caracas, agora se torna um cabo de guerra entre potências, com Trump puxando as cordas com uma ferocidade que desafia as normas diplomáticas e reescreve as regras do jogo global.

Fontes e Referências

"303 bilhões de barris, o que representa 17% do volume global conhecido"

DadosEnergy Information Administration (EIA)

"96% das receitas nacionais antes do bloqueio"

Dadosdados econômicos

"importando mais de 600 mil barris por dia em dezembro de 2025 e respondendo por 80% das compras"

Dadosdados de comércio internacional

""A Arte da Negociação" (1987)"

RelatórioDonald Trump

"exigiu a devolução de "terras, direitos petrolíferos, o que quer que tivéssemos" aos EUA"

CitaçãoDonald Trump

"afirmou que a guerra com a Venezuela "permanecia na mesa""

CitaçãoDonald Trump

"declarações do Ministério das Relações Exteriores chinês em 22 de dezembro de 2025"

RelatórioMinistério das Relações Exteriores chinês

"Maduro classificou a apreensão como "roubo descarado" e "pirataria naval criminosa""

CitaçãoNicolás Maduro

Perguntas Frequentes

O que é a "agressão petrolífera" de Trump na Venezuela?

A "agressão petrolífera" de Trump refere-se à sua estratégia de usar o petróleo venezuelano como ferramenta de coerção geopolítica. Isso inclui a apreensão de petroleiros e ameaças diretas ao governo de Nicolás Maduro, buscando remodelar o fluxo global de energia e a balança de poder regional. Trump trata a soberania venezuelana como um ativo transacionável, exigindo a devolução de "terras e direitos petrolíferos" aos EUA.

Por que o petróleo venezuelano é tão importante geopoliticamente?

A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com 303 bilhões de barris. Essa vasta riqueza a torna um ponto de atrito geopolítico constante. Historicamente, o país dependia quase totalmente do petróleo para suas receitas. O controle ou influência sobre essas reservas é crucial para a segurança energética global e para a projeção de poder de grandes potências como EUA e China.

Como a China é afetada pelas ações de Trump?

A China é o principal importador do petróleo venezuelano, comprando mais de 600 mil barris por dia em dezembro de 2025. As ações de Trump, como a apreensão do petroleiro *Centuries* destinado à China, interrompem diretamente seu fornecimento, elevando custos de energia e forçando Pequim a reavaliar suas cadeias de fornecimento. A China já considera as apreensões uma violação do direito internacional e prometeu "medidas necessárias" para proteger seus interesses.

Quais são os riscos da política de Trump para a América Latina?

A política de Trump na Venezuela eleva o risco de escalada militar para níveis perigosos na América Latina, com a ameaça de guerra explicitamente mencionada. Isso desestabiliza a região, agrava a crise econômica e humanitária venezuelana, e cria um precedente perigoso para a resolução de disputas por recursos. Países como o Brasil se encontram em uma posição delicada, equilibrando relações com Washington e a preocupação com um conflito em suas fronteiras.

Qual o impacto a longo prazo da estratégia de Trump?

A longo prazo, a agressão de Trump na Venezuela pode gerar custos diplomáticos e econômicos significativos para os EUA, alienando aliados e incentivando a busca por alternativas ao dólar no comércio de energia, o que minaria a hegemonia americana. Além disso, ao tratar a soberania como transacionável e a ameaça militar como legítima, Washington erode a arquitetura do direito internacional, abrindo precedentes perigosos para futuras disputas globais por recursos.